Devocionais Vida cristã

Você é pé de quê?

Escrito por Aline Ribeiro

Todo mundo já ouviu o ditado “de boas intenções o inferno está cheio”. E, pelo menos em algum momento, já acreditou nisso, ou talvez ainda acredite. Mas o ponto aqui não é provar se esta frase está certa ou errada. A questão é: intenção é o suficiente?

Como cristãos, sabemos que fomos e ainda estamos sendo transformados, para nos tornarmos cada vez mais parecidos com Cristo. E essa transformação ocorre em nossa mente e em nosso coração. E, hoje em dia, tem-se visto muito a prática da boa intenção. Não que seja uma prática errada, mas é um pouco fácil curtir e digitar “amém” numa foto, para o Facebook (ou sei lá que outra “entidade”) doar R$0,05 para uma causa na África ou no Haiti. Essa onda de “#SomosTodos…”, “JeSuis…”. “PrayFor…” não é atual, apenas ficou mais conhecida através da ampla divulgação pela internet. Não que não devamos orar ou manter a luta de cada um em nossos pensamentos, mas, apenas isso basta?

O próprio Jesus disse que “pelo fruto se conhece a árvore” (Mt. 12.33; Lc 6.43-44). Quando as pessoas olham para a gente, elas enxergam um pé de quê? Melhor, será que elas conseguem identificar a árvore em que estamos enxertados? Será que apenas pensamentos e intenções revelam nossos frutos? Tiago tem a resposta:

“De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Acaso a fé pode salvá-lo? Se um irmão ou irmã estiver necessitando de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês lhe disser: “Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se”, sem porém lhe dar nada, de que adianta isso? Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta.” (Tiago 2.14-17 NVI)

É importante ressaltar aqui que o texto não diz que são as boas obras que salvam. Efésios 2 nos diz que somos “salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês [nós], é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie. Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos.” (Efésios 2.8 -10 NVI, grifo e comentário meus). Desta forma, as boas obras são uma evidência da salvação, e não a causa dela.

Porém, se fomos salvos para fazermos boas obras, o que acontece quando ficamos apenas no campo da intenção? Vemos hoje muitos irmãos “desigrejados”, que se sentiram desvalorizados por não terem oportunidades (de cantar/pregar/ensinar/etc.) em suas antigas comunidades; irmãos e irmãs que reclamam com Deus da solteirice, porque tem qualidades excelentes, mas ninguém “os escolhe”.

Mas será que a comunidade olhava para você e via os frutos? Será que a “varoa” ou o “varão” olhavam para você e viam uma árvore que frutifica? E sim, a questão das ações pode ser relativa. Sabemos que existem pessoas que fazem trabalhos “magníficos”, mas apenas com intenção de chamarem a atenção para si. Porém, isso não pode ser desculpa para ficarmos parados.

No livro “Cartas de um diabo ao seu aprendiz”, C. S. Lewis, em toda sua genialidade, descreve uma lição que o diabo-mor ensina ao seu inferior: deixe que o humano, de quem você está cuidando, ame a humanidade. Deixe que sinta um grande pesar pelas crianças da África ou de outros lugares longe dele. Interfira quando o outro que ele tem que amar estiver próximo a ele. Não há nenhum problema para nós se ele quer mudar a realidade de um país longínquo, mas não sabe demonstrar amor por sua mãe. Ele só pode agir entre aqueles que o cercam. Ele não pode fazer nada de concreto para quem está longe (trecho parafraseado).

Lembro que quando li esta carta, Deus me jogou no chão. Era assim que via as coisas. Somos sedentos para espalhar o evangelho por todos lugares em que ele ainda não chegou, mas não conseguimos falar com nossos amigos da escola, faculdade ou trabalho; queremos acabar com a fome das crianças na África, mas ignoramos nossos próprios miseráveis, jogados nas ruas; ficamos indignados com a cultura de outros países que subjuga mulheres e crianças, mas deixamos garotas do nosso país serem usadas como escravas sexuais para turistas; achamos um absurdo o Estado Islâmico recrutar crianças para treiná-las, mas fechamos os olhos para os meninos recrutados diariamente pelo tráfico de drogas em nossas cidades; reclamamos que faltam oportunidades para meninos e meninas haitianas estudarem, mas não damos a mínima para as condições precárias da nossa educação.

Romantizamos demais as nossas lutas, usamos nosso coração como moeda: eu amo a humanidade, eu quero ajudar a melhorá-la. Mas só se for lá fora, porque lá eu posso usar a desculpa de que “eu não tive como”, lá a responsabilidade não cai sobre mim. É como ver nossos filhos passando fome, mas querer alimentar o filho do vizinho que não fala com a gente. Não poderemos entrar lá para mudar aquela situação, a não ser que o outro mude. E até o outro mudar, estamos resguardados, protegidos pela desculpa da intenção.

Não estou dizendo que não devemos fazer nada pelos irmãos de outros países. Existem pessoas que realmente tem um chamado para trabalharem lá fora, para saírem. E glória a Deus por isso! O Reino tem que se expandir, o evangelho tem que ser pregado e os missionários estão lá para fazerem esse trabalho. Tenho certeza que se muitos tivessem a chance de escolher, não iriam optar por viver em países em que há perseguição aos cristãos, mas eles estão lá, porque sabem quem os chamou, sabem que devem estar lá.

O que estou dizendo é que enchemos a boca para falar que somos cheios do amor de Deus, que somos ramos enxertados na Videira, mas onde estão os frutos? Somos pé de quê? O mundo consegue saber? O mundo consegue identificar?

Quantos jovens mais, envolvidos com o crime, vão precisar morrer até a gente começar a falar da verdadeira liberdade para eles? Quantas crianças vão ter que morrer de fome, até que isso nos incomode a tal ponto de não conseguirmos dormir sem pensar em ações para que isso acabe? Quantos adolescentes mais vão cometer suicídio, até a gente perceber que esse amor imenso que habita em nós é um amor acolhedor, que nos abraçou mesmo sendo indignos disso, e começarmos a acolhê-los também? Quantos mais vão se perder até percebermos que esse pé tem que dar fruto?

“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, ele corta; e todo que dá fruto ele poda, para que dê mais fruto ainda. Vocês já estão limpos, pela palavra que lhes tenho falado. Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim. Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa alguma. Se alguém não permanecer em mim, será como o ramo que é jogado fora e seca. Tais ramos são apanhados, lançados ao fogo e queimados”. (João 15.1-6 NVI)

Como cristãos, nossa maior preocupação é glorificar a Deus em nossa vida, nos portando como verdadeiros discípulos. E é dessa forma que Jesus encerra sua fala sobre o assunto:

“Meu Pai é glorificado pelo fato de vocês darem muito fruto; e assim serão meus discípulos.” (João 15.8)

Que frutifiquemos, irmãos. Não para nós, para Ele.

Imagem destacada: “fruit balls“, por Martin Fisch


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Sobre o autor

Aline Ribeiro

Cristã, bióloga, professora, bibliófila, meio nerd, meio escritora, meio pianista e, como a foto sugere, meio besta.

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