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Tomar a ceia indignamente ou indigno?

tomar a ceia indignamente

Muita confusão se faz em cima do “tomar a ceia indignamente” que Paulo comenta em 1 Coríntios 11.27. Grande parte dos ministrantes usa esse texto para referir-se a uma exigência de santidade para fazer parte desse momento. O texto diz o seguinte:

“Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpado de pecar contra o corpo e o sangue do Senhor.” (1 Coríntios 11.27 NVI)

Acontece que muitos pegam a palavra “indignamente” e a associam à pessoa que toma a ceia, quando, na verdade, ela está fazendo referência ao modo como se toma a ceia. Não está escrito “indigno”, mas “indignamente”. A mudança parece sutil, mas faz toda a diferença.

Momento da Tia Júlia, aquela sua professora de português do Ensino Fundamental:

Indigno é um adjetivo, ou seja, uma palavra que dá qualidade a um substantivo, ou a um sujeito. Por exemplo, em “O prisioneiro indigno foi preso.”, “indigno” dá qualidade ao substantivo “prisioneiro”, e informa ao leitor, em uma análise mais ampla, que aquela prisão foi justa, não sendo o prisioneiro alguém que se queira defender, afinal, é indigno.

Indignamente, por sua vez, é um advérbio de modo, que é uma palavra, ou expressão, que dá qualidade não ao substantivo, mas sim ao verbo da frase. Em outras palavras, ele informa a maneira como a ação do verbo foi executada. No mesmo exemplo, “O prisioneiro foi preso indignamente.”, temos que não é o prisioneiro, mas sim a forma como ele foi preso que não possui dignidade. É possível inferir até mesmo que a prisão foi injusta, que aquele preso não merecia estar sendo preso, que o ato de o prender é um ato indigno. Viu só que diferença? A situação mudou para o completo oposto ao se trocar adjetivo por advérbio.

Voltando ao texto bíblico, temos que “indignamente” se refere ao “comer o pão ou beber o cálice”, indicando que há um modo certo de tomar a ceia, mas não falando absolutamente nada sobre a condição de quem pode, ou não, tomar a ceia. Não está escrito “tomar a ceia indigno”, mas sim “tomar a ceia indignamente”.

E essa é a realidade do texto como um todo: nesse trecho inteiro, Paulo está falando sobre o modo de tomar a ceia, e não há uma menção sequer para que alguém deixe de tomar a ceia por algum motivo.

Para você entender melhor, os Coríntios faziam pouco caso da ceia, sem perceber o seu real significado. Eles faziam uma festa, com comida e bebida, onde havia muita gula e egoísmo. Existia até mesmo quem, por não ter recursos, ficava excluído e acabava passando fome em um momento que deveria ser de união, comunhão e gratidão.

Tomar a ceia indignamente é tomá-la desprezando seu significado. Tomar a ceia indignamente é tomá-la como se fosse qualquer coisa, como se fosse um lanche qualquer. Tomar a ceia indignamente é tomá-la sem analisar a si mesmo, sem colocar seu pecado diante de cruz, é tomá-la pensando que é digno daquele momento e do que Cristo fez.

Devo deixar de tomar a ceia se pequei?

A verdade é que uma das piores coisas que um cristão pode fazer na liturgia do culto é deixar de tomar a ceia por ter pecado. É claro que se você vive como escravo do pecado, se não lhe acusam a consciência os erros que você comete, algo está errado, e você deveria buscar ajuda, pois é bem provável que você não conheça a Cristo e não tenha o Espírito Santo dentro de você, não fazendo sentido algum, portanto, que você participe da ceia. Charles Spurgeon tem uma frase sobre essa diferença: “As ovelhas podem até cair na lama, mas só os porcos rolam nela.”, mas isso é assunto para outro texto.

Agora, entenda que a única coisa que pode resolver o seu pecado é o sangue de Cristo. Não existe outra solução. A ceia busca lembrar justamente dessa verdade. Celebramos a morte e ressurreição de Cristo, porque através dela somos perdoados, curados e regenerados.

Então quando você deixa de tomar a ceia, por conta de ter pecado, está acontecendo o seguinte, simbolicamente: você tem um pecado dentro de você, e o sangue de Cristo em suas mãos. Então você olha para o seu pecado, olha para o sangue de Cristo e escolhe o seu pecado. Dizer que o seu pecado lhe impede de tomar a ceia, é afirmar que o seu pecado é mais poderoso que o sangue de Cristo.

A ceia não é um troféu, não é um bônus ou um prêmio que se ganha por merecimento. A ceia é um remédio. É o símbolo daquilo de que mais precisamos. A ceia simboliza a solução para o nosso maior problema. A ceia representa o sacrifício de Cristo, que fulminou o pecado, e não é algo que merecemos, mas sim de que necessitamos e recebemos de graça e por graça.

Por isso, jamais deixe de tomar a ceia por conta do pecado. A não ser que você conscientemente queira desprezar a obra da cruz e se apegar ao seu pecado, participe da ceia. A ceia é um momento de reflexão e arrependimento, por isso a ordem de Paulo, no versículo 28: examine-se cada um a si mesmo e coma. Para não tomar a ceia indignamente, tome consciência dos seus erros, perceba o quanto você é indigno do que Cristo fez, e então participe da ceia, aceitando em gratidão e celebração o Seu sacrifício.

Lembre-se de que ninguém é digno por sua própria conduta. A Bíblia é clara nesse ponto: “Se afirmarmos que estamos sem pecados, enganamos a nós mesmos” (1 João 1.8 NVI); “Como está escrito: ‘não há nenhum justo, nem um sequer’” (Romanos 3.10 NVI). Ou seja, por esse padrão religioso, ninguém deveria tomar a ceia, pois todos estariam tomando a ceia indignamente. Tomamos a ceia justamente porque:

“Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados, Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos vida com Cristo quando ainda estávamos mortos em transgressões—pela graça vocês são salvos. Deus nos ressuscitou com Cristo e com ele nos fez assentar nas regiões celestiais em Cristo Jesus, para mostrar, nas eras que hão de vir, a incomparável riqueza de sua graça, demonstrada em sua bondade para conosco em Cristo Jesus.” (Efésios 2:1,4-7 NVI)

Glórias a Deus pela graça que recebemos. Glórias a Deus pelo sacrifício da cruz. Glórias a Deus pela ceia do Senhor. Amém.


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Sobre o autor

Filippe D. de Souza

Dono, editor e escritor do blog.
Pastor e líder de voluntários na Igreja Palavra Viva (rodapé), advogado, formado em Direito pela UFSC, cursando Teologia livre pela Unigrace.

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