Devocionais Vida cristã

Sobre a insuficiência do Evangelho

Escrito por Aline Ribeiro

Histórias sobre a insuficiência do Evangelho nas comunidades ditas cristãs não são raras e muito menos atuais. Desde os primórdios da religião, práticas não-bíblicas são incorporadas à liturgia dos cultos ou como doutrinas por diversos grupos religiosos. Hoje, por exemplo, comemoramos os 500 anos da Reforma Protestante, movimento, liderado/iniciado por Martinho Lutero, que lutou contra ações de origem extrabíblica, que faziam parte do cerne da Igreja Católica no século XVI.

Foi desse movimento que surgiram as 5 solas que regem a igreja protestante até os dias de hoje: Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fide, Solo Christus e Soli Deo Gloria. Se fossemos resumir os tópicos em uma única frase, seria algo como: “somente as Escrituras têm autoridade sobre a Igreja; somente pela Graça somos salvos; isto ocorre somente através da Fé; somente por meio da obra de Cristo, de modo que a toda a Glória pela salvação seja dada somente a Deus”. No ano passado, fizemos um artigo bem bacana dando uma noção básica desses conceitos.

Assim como, em 1517, Lutero observou práticas que não se encaixavam com a determinação bíblica para as igrejas, se tirarmos poucos minutos para pesquisarmos, descobriremos que este é um problema ainda recorrente em comunidades cristãs. O que parece, quando observamos, é que há uma insuficiência do Evangelho, como se apenas ele não bastasse para as demandas pessoais e espirituais dos irmãos. E mesmo se tratando de abordagens diferentes, nos dois casos, é como se fosse necessário algo a mais. Algo que atraia, algo que estimule a ficar.

Veja, é ótimo que a congregação reveja suas ações constantemente, buscando ações saudáveis para a comunhão entre os seus membros. Grupos de relacionamento, de acolhimento, entre outros, são sempre importantes para fazer com que as pessoas se sintam parte da comunidade. O perigo reside, principalmente, em possíveis interpretações, que podem julgar essas práticas benéficas como sendo o que, de fato, atrai os irmãos e os fazem ficar na Igreja. É preciso ter cuidado para discernir se isso não se torna uma estratégia extrabíblica, se isso não se extrapola ao Evangelho, dando a entender, de alguma forma, que apenas a Palavra de Deus não é o suficiente.

Esse assunto me traz a lembrança um trecho de uma pregação que o Paulo César, do Grupo Logos, levou para minha Igreja, no ano passado:

E, voltando Eliseu a Gilgal, havia fome naquela terra, e os filhos dos profetas estavam assentados na sua presença; e disse ao seu servo: Põe a panela grande ao lume, e faze um caldo de ervas para os filhos dos profetas. Então um deles saiu ao campo a apanhar ervas, e achou uma parra brava, e colheu dela enchendo a sua capa de colocíntidas; e veio, e as cortou na panela do caldo; porque não as conheciam. Assim deram de comer para os homens. E sucedeu que, comendo eles daquele caldo, clamaram e disseram: Homem de Deus, há morte na panela. Não puderam comer. Porém ele disse: Trazei farinha. E deitou-a na panela, e disse: Dai de comer ao povo. E já não havia mal nenhum na panela. (2 Reis 4.38-41 ACF)

A ordem do profeta, no trecho acima, foi bem simples e direta: faze um caldo de ervas. Um deles, que foi buscar as ervas, talvez achando que não faria mal, quis complementar o caldo, com algo que não conhecia. A voz do profeta não foi suficiente, era necessário algo a mais. O resultado é exposto nos versículos seguintes: morte. Depois, Eliseu usa farinha (neste caso, como um elemento do Pão, que nos livra da morte) e resolve o problema. Problema que seria evitado se a ordem tivesse sido seguida desde o princípio.

A Bíblia é bem clara sobre a questão da insuficiência do Evangelho: o que faz as ovelhas seguirem a Cristo é a Sua voz, que elas reconhecem e seguem (Jo 10.27 – Todo o capítulo 10 é uma ótima leitura sobre o tema). O que traz ovelhas à Igreja (aqui tratada como instituição) é a voz do Pastor. Os que não reconhecem a voz do Pastor não creem e não o seguem. E não adianta dispor de outros meios para buscá-los, atraí-los. Quando esses meios se esgotarem e só restar a voz do Pastor, eles vão embora, porque não creem. Aqueles que conhecem a Sua voz, pelo contrário, o seguem até o fim.

Mas o que é a voz do Pastor? A verdade bíblica está sendo pregada? A verdade sobre o pecado e a salvação (e como esse processo se dá) é exposta de maneira clara? Os irmãos prezam pela comunhão, amando uns aos outros como Cristo os ama (Jo 13.32), suportando uns aos outros em amor (Ef. 4.2; Col 3.13)? As práticas adotadas pela comunidade glorificam a Deus, e fazem com que os membros o glorifiquem? É certo que a Igreja é formada por humanos, falhos, e, por isso, não será perfeita até a volta de Cristo, mas isso não é razão para desleixo e descompromisso com a Palavra.

Hoje, não precisamos de 95 teses como as que Lutero pregou, há 500 anos, na Catedral de Wittenberg, mas talvez outra reforma seja necessária. Uma reforma no sistema que enxerga verdades bíblicas como insatisfatórias e que prega, às vezes mesmo sem saber, a insuficiência do Evangelho. A voz do Pastor é para todas as ovelhas: jovens, idosos, casados, solteiros, ricos e pobres. E é suficiente (e eficiente), pois uma vez que Ele chama, elas vêm e o seguem, porque a conhecem. E nada mais é necessário para que este encontro aconteça.

Só as Escrituras; só a Graça; só a Fé; só Cristo; Glória somente a Deus. Só isso. Nada mais.

Amém.

Imagem destacada: “Photomarathon 11: Simplicity“, por Kenneth DM


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Sobre o autor

Aline Ribeiro

Cristã, bióloga, professora, bibliófila, meio nerd, meio escritora, meio pianista e, como a foto sugere, meio besta.

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