Devocionais Graça

“Preso, em nome da lei!”

Escrito por Aline Ribeiro

Se você tem mais de 20 anos, certamente já ouviu a frase do título em algum momento da sua vida, enquanto brincava de “Detetive, vítima e assassino”. Se você não conhece a brincadeira, ela consiste num sorteio de papeizinhos que indicam a função que cada um do grupo de amigos vai desempenhar na brincadeira. Quem recebe o papel do assassino deve matar as vítimas com piscadas, porém de forma que o detetive não o veja. O objetivo do assassino é matar todas as vítimas sem que o detetive o pegue e quando este percebe a “piscada”, olha para o assassino e diz: “Preso, em nome da Lei!”.

Ainda que, a respeito do Evangelho, vivamos no tempo da Graça, por muitas vezes nos comportamos como “detetives da fé”, que procuram piscadelas para condenar os “assassinos”, usando o jargão da brincadeira. E, mesmo com o sacrifício de Cristo tendo nos libertado, às vezes insistimos em prender amigos, irmãos e ovelhas debaixo do (pesado) jugo da Lei.

Sabemos, por meio das Escrituras, que a Lei não veio para nos salvar. E isso fica claro com a escolha de Deus por Abrão (Gênesis 12) e a promessa que o faz (Gênesis 15), antes que houvesse Lei e a possibilidade de Abrão cumpri-la. Outro exemplo, que nada mais é do que uma continuidade da promessa, é a libertação do povo hebreu da escravidão do Egito. Esta é descrita em Êxodo 13-14, enquanto a Lei só aparece a partir do capítulo 20, do mesmo livro. A Lei (e seu consequente cumprimento) nunca foi dada como forma de salvação e justificação, mas para nos mostrar que a nossa incapacidade em cumpri-la aponta para a necessidade de um salvador, uma vez que não podemos salvar a nós mesmos (Gálatas 3.10-11).

E o fato de a Lei ter vindo depois da promessa e da libertação também nos mostra como Deus nos oferece esse salvador: sem mérito, sem condição. É a graça no seu sentido mais puro. Favor imerecido.  “Pois, se a herança depende da lei, já não depende de promessa. Deus, porém, concedeu-a gratuitamente a Abraão mediante promessa” (Gálatas 3.18 NVI, grifo meu). Desde o início, nunca foi por obras, sempre foi pela graça, por intermédio da fé (Gênesis 15.6; Efésios 2.8-9).

A nossa tendência, quando achamos que somos salvos pela obediência à Lei, é manipulá-la, de forma que a simplifiquemos e sejamos capazes de cumpri-la, porque é impossível cumpri-la em sua totalidade (Romanos 3.20; Gálatas 2.16). Um exemplo disso é o jovem rico, que vai ter com Jesus (Mateus 19.16-22). Ele honra os pais, não furta, não adultera, porém seu coração é ganancioso e quando Jesus diz para que ele venda tudo o que tem e dê aos pobres, ele se entristece, pois era muito rico. Além de já não conseguirmos cumprir a lei mosaica, Jesus ainda eleva o nível, quando nos mostra que não é apenas “não matarás”, “não adulterarás” na sua forma prática. Agora, se nos iramos com um irmão ou se olhamos com cobiça para outrem, estamos sujeitos ao mesmo julgamento.

Isso não quer dizer que, uma vez que somos impossibilitados de cumprir a Lei, devemos ignorá-la. Muitos menos que por sermos salvos pela graça e não estarmos sob o jugo da Lei, podemos nos atirar no pecado (Romanos 6.15). O sentido é que se distorcemos a Lei para que ela seja o meio pelo qual obtemos salvação, ou seja, se distorcemos o propósito da Lei, tornamos a obediência a ela em algo pagão. Porque se obedecemos para termos favores em troca, isso nada nos diferencia da cultura pagã. O cerne do evangelho é o favor imerecido, o dom gratuito, a graça. Se consideramos que somos salvos pela nossa obediência à Lei, a salvação não é um favor imerecido, mas uma dívida de Deus para conosco (Romanos 4.4) e isso fere a essência cristã, pois se acreditamos que a justiça pode ser estabelecida pela Lei, então Cristo morreu em vão. (Gálatas 2.21)

A Lei nunca pode trazer uma mudança de dentro para fora. Isso só pode acontecer por meio de Cristo, que além de si mesmo, nos deu também o seu Espírito, só isso que nos transforma. É a diferença entre gravar as leis nas tábuas de pedra e nas tábuas de carne, entre ser algo externo e algo interno que provoca, de fato, uma transformação (Jeremias 31.33; 2 Coríntios 3.3-7). Dessa forma, a Lei nunca pode nos trazer a salvação. Como nossa tutora (e não redentora), ela pode apenas apontar para o caminho para a nossa redenção: Cristo, aquele que cumpriu toda a Lei, sofreu a ira de Deus em nosso lugar e conquistou a nossa justiça.

Que não mais caiamos no erro de vivermos como escravos da Lei.

“Mas agora, conhecendo a Deus, ou melhor, sendo por ele conhecidos, como é que estão voltando àqueles mesmos princípios elementares, fracos e sem poder? Querem ser escravizados por eles outra vez?” (Gálatas 4.9 NVI)

Que nunca mais prendamos ou sejamos “presos, em nome da Lei!”. Cristo veio para nos trazer liberdade, e não para nos aprisionar. Sejamos livres.

Amém.

Imagem destacada: “caged“, por Dave Nakayama


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Sobre o autor

Aline Ribeiro

Cristã, bióloga, professora, bibliófila, meio nerd, meio escritora, meio pianista e, como a foto sugere, meio besta.

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