Devocionais Graça Vida cristã

Meu pirão primeiro! #ViverMaisAlto

O ditado é conhecido. Farinha pouca, meu pirão primeiro. Se você não o conhece, é simples: se algo é escasso, vou primeiro garantir o meu, ao invés de deixar a distribuição seguir sua ordem natural. É um lema de esperteza, “molejo”, mas, sobretudo, indiferença.

Geralmente o ditado é usado por pessoas comuns, sem maldade, em situações bobas, então não quero, nesse texto, discursar como um moralista contra a “cultura do pirão primeiro” ou algo parecido. Na verdade eu venho trazer, como de costume, uma reflexão que fiz em mim mesmo.

Esse ditado expressa uma situação em que, por conta de um situação difícil, a pessoa passa a agir de maneira diferente, em busca de uma vantagem que, sem seu próprio esforço, não conseguiria. Pensando nessa definição, percebi dois grandes problemas do homem: a) fixar os olhos na situação e; b) tentar resolver com seu próprio esforço.

Como eu já escrevi antes, não há homens sem erro na Bíblia, a não ser Cristo. O exemplo mais icônico do primeiro problema que citei, biblicamente, é Pedro, o apóstolo que estava ali, ao lado de Jesus no dia-a-dia.

Em Mateus 14, podemos conferir a história que conta como Pedro andou sobre as águas. Long story short, Pedro desafiou Cristo: “Se é você mesmo, que eu ande sobre o mar até você!”; e Ele respondeu: “Vem!”. Nos primeiros segundos, funcionou. Pedro creu, fixou os olhos em Jesus e entrou para a história na frente de todos ao andar sobre as águas junto com Jesus. Mas no versículo 30 está escrito que, ao prestar atenção nas condições à sua volta, vento e mar agitado por conta da tempestade, Pedro afundou.

É isso que acontece conosco. É simples: enquanto estivermos olhando para Cristo, podemos andar sobre as águas e conquistar tudo aquilo que Deus sonha para nós, mas no momento em que tirarmos o foco d’Ele e focarmos nas condições ao nosso redor, afundamos por medo.

É claro que a Graça de Jesus Cristo se manifesta de maneira palpável justamente quando afundamos, sobrepujados pelos problemas que tememos irracionalmente, e Sua mão está lá para nos salvar, como aconteceu com Pedro, que foi resgatado por Cristo, enquanto afundava. Mas teria sido melhor continuar andando sobre as águas.

Coloque uma coisa em mente: Jesus Cristo é maior do que as condições que o cercam, como era maior que a tempestade que assombrava os discípulos, e por isso mesmo fez com que Pedro realizasse o impossível, da mesma forma como pode fazer com você.

O segundo problema segue a mesma linha de falta de fé. Pensamos que sem nosso próprio esforço, não conseguiríamos nada. É comum, em nossa cultura meritocrática, colocar o esforço próprio em um pedestal de autoridade. Mas na cultura do Reino, não é assim como as coisas deveriam ser vistas.

Em primeiro lugar, é essencial deixar bem claro que não sou contra o esforço próprio. Paulo é incisivo ao informar que a Graça não nos deixa relaxados, mas sim nos impulsiona a trabalhar mais, a tentar mais, a buscar mais, entretanto, não esperando de nossa ação o resultado, mas por amor e gratidão. Devemos ser bom mordomos de tudo o que nos for confiado, o que aprendi enfaticamente, quando criança, no projeto de escotismo ADAD, da Igreja Assembleia de Deus em São José.

O problema, na verdade, aparece quando no esforço em si reside a nossa confiança. Temos fé em nós mesmos, ao invés de ter fé em Cristo. Vemos nosso esforço individual como causa de nossas vitórias, assim deixamos de lado a soberania de Deus. Tudo o que fizermos, deve ser consequência, e não causa, da nossa vitória em Jesus. Essa é a ordem espiritual do Evangelho.

Quando confiamos no nosso próprio esforço, por conta das situações que nos cercam, estamos dizendo para Deus: “Não, peraí, que isso que aqui tá complicado demais, deixa que eu resolvo”. Não parece loucura? Por que deixar de confiar em Deus justamente quando as circunstâncias são desfavoráveis? Por que confiar em nossa força, justamente quando somos fracos demais para vencer?

Deus é um Pai presente, que quer cuidar de nós a cada passo. Não há coisa melhor e mais proveitosa do que confiar nessa verdade e viver de maneira leve, sem esperar nada em troca de nossas ações, mas fazer simplesmente por ser.

Voltando ao ditado, veja como ele perde o sentido quando você vive de acordo com esses dois princípios: se eu vivo não mais com foco nas situações que me cercam, mas antes com foco em meu Salvador, eu não vou me alterar por haver pouca farinha. Se Deus quiser que a farinha chegue até mim, ótimo, se não, confio no Seu julgamento. A Sua Graça me basta.

De outro modo, se minhas ações não são a causa de minha vitória, mas antes são consequência dos princípios pelos quais vivo, elas não podem ser alteradas de acordo com a situação. Se for pra eu ter pirão, que tenha, se não, confio, novamente, no julgamento do Pai.

Perceba que o Evangelho nos oferece um referencial fixo para moldar nosso agir. Enquanto as circunstâncias vêm e vão, melhoram e pioram, o Evangelho nos dá uma rocha como base: Cristo. O cristão deve agir sempre com base em Cristo. É muito mais simples agir dessa forma.

A consequência de ignorar a quantidade de farinha que ainda tem? Talvez você fique sem pirão, mas sem arrependimentos, pois quem mata sua fome é o Pai. Talvez você coma o pirão, da mesma forma que aqueles que quase enlouqueceram por medo de ficar sem. E talvez você coma filé mignon, um prêmio guardado somente para aqueles cuja confiança reside em algo mais alto. Viva mais alto. Amém.

Imagem destacada: “Flour“, por Crystal


Para perguntas ou pregações e palestras na sua igreja, entre em contato. Não esqueça de curtir a nossa página, inscrever-se no canal e nos seguir no Twitter e no Instagram!

Facebook Comments

Sobre o autor

Filippe D. de Souza

Dono, editor e escritor do blog.
Pastor e líder de voluntários na Igreja Palavra Viva (rodapé), advogado, formado em Direito pela UFSC, cursando Teologia livre pela Unigrace.

Deixar um comentário

Share This