Devocionais Vida cristã

Em terra de cego, quem tem o Evangelho é luz

Escrito por Aline Ribeiro

Ensaio Sobre a Cegueira é o mais famoso livro do escritor português José Saramago; a obra foi adaptada para o cinema, em 2008, com direção de Fernando Meirelles e com um elenco de peso. Nele, o autor narra uma experiência em que parte da população de uma cidade é contagiada com cegueira e colocada em quarentena. Esse isolamento é excelente para retratar a natureza caída do ser humano. O cenário é perturbador, mas ele não muito difere do que vemos no mundo espiritual.

Enquanto assistimos como se portam aqueles que não enxergam, mas sabem (ou imaginam) que não podem ser vistos, somos tomados pela percepção de que essa é a condição humana longe de seu criador. Alguns se mostram desesperados, outros desesperançados e há ainda aqueles que, mesmo tão cegos quanto os demais, tentam se aproveitar dos seus semelhantes.

Como seres sociais, em geral, formamos grupos e isso também acontece com as personagens da crônica. Mesmo de forma involuntária, às vezes escolhemos líderes para esses grupos e, no caso dos desprovidos de visão, isso pode se tornar um perigo. São cegos guiando cegos.

A Bíblia inteira nos conta uma história de como podíamos ver, perdemos a visão e podemos ser curados da cegueira. Longe de Cristo, andamos como cegos (Isaías 59.10), não conseguimos enxergar a verdade do Evangelho escancarada na nossa frente (2 Coríntios 4.4). E, a menos que sejamos libertos da escuridão, permaneceremos desta forma. Isso se torna um problema muito maior quando, por não enxergarmos, seguimos líderes também cegos, que ao invés de nos levarem para luz, nos carregam para buracos cada vez mais escuros (Mateus 15.14).

A obra de Cristo, ao contrário, nos liberta de toda escuridão. Em João 9, temos um relato prático do que Jesus faz espiritualmente por nós. Somos convertidos quando o Espírito abre nossos olhos e percebemos nossa miserabilidade e a lama em que estamos afundando. É impossível que nos arrependamos dos nossos pecados se não os enxergamos. A própria conversão de Saulo nos mostra o que acontece, uma vez libertos: “Imediatamente, algo como escamas caiu dos olhos de Saulo e ele passou a ver novamente.” (Atos 9.18).

Como cristãos, fomos chamados das trevas para a maravilhosa luz (1 Pedro 2.9). Saímos de um estado de cegueira espiritual e passamos a ver com clareza aquilo que Deus nos revela. É como Paulo narra em 1 Coríntios 2: como pessoas espirituais, discernimos as verdades espirituais. Cegos, nunca conseguiríamos fazê-lo.

Quando não enxergamos e andamos entre cegos, sabemos que erramos, mas, quando esbarramos nas consequências, tendemos a responsabilizar o outro. Quando vemos, isso não pode mais acontecer. Agora, estamos cientes de nossos atos. Vemos a falha do outro, cego, e não devemos jogar um peso de culpa nele, porque sabemos que, mesmo sendo capazes de enxergar, às vezes, cometemos os mesmos erros. Podemos até ver o cisco no olho do irmão, mas apenas depois de tirarmos a trave do nosso (Mateus 7.5).

Quando somos libertos, de fato, da escuridão, isto se torna visível e a alegria de todos aqueles que conseguem ver é tão grande, que eles se portam como Paulo, Epafras e todos os outros colaboradores que ajudavam na propagação do Evangelho:

“Por essa razão, desde o dia em que o ouvimos, não deixamos de orar por vocês e de pedir que sejam cheios do pleno conhecimento da vontade de Deus, com toda a sabedoria e entendimento espiritual. E isso para que vocês vivam de maneira digna do Senhor e em tudo possam agradá-lo, frutificando em toda boa obra, crescendo no conhecimento de Deus e sendo fortalecidos com todo o poder, de acordo com a força da sua glória, para que tenham toda a perseverança e paciência com alegria, dando graças ao Pai, que nos tornou dignos de participar da herança dos santos no reino da luz. Pois ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado, em quem temos a redenção, a saber, o perdão dos pecados.” (Colossenses 1.9-14 – NVI)

É importante também destacar que enxergar, num mundo dominado pela cegueira, é um privilégio. Entretanto, isso nos traz uma grande responsabilidade. Como nos portaremos diante disso? Isolaremos aqueles que não enxergam, deixando-os serem guiados por líderes cegos, ou tentaremos levar a cura até eles?

Quantos de nós, ao assistirmos filmes ou lermos livros, não ficamos pensando no que poderíamos fazer para ajudar algum personagem? Temos uma visão externa muito mais privilegiada, que capta inúmeros fatores indisponíveis aos personagens e sentimos que poderíamos ajudá-los, caso eles nos ouvissem. No cinema e na literatura, isso não é possível, uma vez que a obra já foi encerrada pelo autor.

Todavia, a arte pode nos levar à reflexão sobre vários aspectos da nossa vida. Vida esta que mais se assemelha a um livro/filme com final inconclusivo, em que nós escolhemos como de fato terminá-lo. O exercício reflexivo, neste caso, nos leva a questionar como agiríamos se enxergássemos em um mundo de cegos. E nossa vida cristã baseia-se exatamente nisso.

Quando nossos olhos são abertos e percebemos a verdade do evangelho, não somos imediatamente arrebatados e levados para morar com Cristo. Isso seria ótimo, visto que nos permitiria que vivêssemos na presença do Criador, como nossa alma anseia e ainda nos pouparia de inúmeros conflitos. Um cristão, no céu, pode fazer tudo o que um cristão aqui na Terra faria, menos uma coisa: evangelizar. É aí que entra nossa responsabilidade como pessoas que podem ver. A Grande Comissão (Mateus 28.19-20), a ordem que Cristo nos deixou, é exatamente sobre isso: vá aos cegos e mostre-lhes a Luz; mostre-lhes que é possível enxergar.

Uma vez salvos, somos a luz do mundo (Mateus 5.14). Assim, minha oração é que sejamos feixes de luz que apontam o Caminho para os prisioneiros da escuridão.

Amém.


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Sobre o autor

Aline Ribeiro

Cristã, bióloga, professora, bibliófila, meio nerd, meio escritora, meio pianista e, como a foto sugere, meio besta.

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