Devocionais Vida cristã

A razão na minha fé – #MêsDaReforma

Escrito por Aline Ribeiro

Fé e razão são duas palavras que raramente estão na mesma frase. Dizem por aí que uma anula a outra e, por isso, elas são opostas. Particularmente, discordo dessa opinião. É verdade que a fé, em sua essência, vai além da razão. Se explico Deus apenas racionalmente, não há razão para a fé. Como o primeiro versículo da carta aos Hebreus diz: “Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos.” (NVI). A fé, então, nada mais é do que tomar uma hipótese como verdadeira, sem a necessidade de verificação. Se você acredita em Deus, sabe como isso funciona.

Apesar de, nós cristãos, sabermos que “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos. ” (Sl 19.1 NVI) e que “desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas” (Rm 1.20 NVI), não há meio de provar cientificamente que Deus existe. E é exatamente essa a base da fé: se posso provar algo, não preciso ter fé nisso. E a Bíblia deixa claro que “sem fé, é impossível agradar a Deus” (Hb 11.6 NVI). Então, por que esse texto parece querer relacionar fé e razão?

Embora não possamos direcionar todo o nosso estudo sobre Deus pela razão, isso não quer dizer que ela não exista no meio da fé. Deus, querendo se fazer conhecer, nos deixou Sua sagrada Escritura, o que conhecemos como Bíblia. Através de Sua Palavra, Deus revela a Si mesmo e as suas obras. Então, a partir do momento que você assume, pela fé, Sua existência, pode começar a conhecê-Lo por meios mais racionais.

Isso não significa que Deus não opere ou deixe de operar por meios sobrenaturais. Ele pode usar sinais e milagres para se mostrar a você. Aliás, Ele pode usar o que Ele quiser, porque Ele é Deus. A questão aqui é que se pode estudar Deus. Inclusive, a essa ciência que o estuda, damos o nome de Teologia. É isso que os pastores e padres fazem para poderem levar à Igreja a real mensagem do evangelho.

O problema é que temos grandes opostos quando se trata desse assunto. O primeiro diz que não se deve estudar Deus racionalmente, porque Ele é apenas sobrenatural. O segundo tenta explicáLo racionalmente e acaba colocando um peso muito grande na razão e no conhecimento em si e não no objeto de estudo: Deus. Inclusive, O Filippe trouxe uma excelente reflexão sobre isso no texto da semana passada. Para piorar, na maioria das vezes, o comportamento de um oposto incomoda a maneira de ver/entender Deus do outro, e isso acaba gerando aquelas discussões intermináveis, sem fundamento e sem propósito que vemos muito, principalmente nas redes sociais.

Convenhamos que, em geral, nenhum extremo é bom. Por isso, considero que o lugar ideal é o meio do caminho entre os dois. Deus nos deu meios para conhecê-Lo e, além disso e para isso, nos deu um cérebro. Não somos os únicos animais com este órgão na caixa craniana, porém somos os únicos capazes de estabelecer padrões de raciocínio. E isso não é à toa. O próprio relato da criação nos apresenta de forma diferente de todos os seres vivos. Fomos feitos segundo a imagem e semelhança de Deus. E como Deus não faz nada que não faça sentido (pode não fazer para nós, humanos, com o nosso raciocínio limitado), nos criou para que também fôssemos capazes de tal feito.

Certamente, com a queda de Adão, todas as nossas esferas humanas foram afetadas e isso inclui também nossos pensamentos e não conseguimos (nem conseguiremos) alcançar o padrão divino. Porém, fomos criados com essa capacidade e Deus não faz nada em vão. E se tudo que foi criado deve ser usado para glorificar a Deus, por que não nosso raciocínio?

No dia 31/10, comemoramos 499 anos da Reforma Protestante. Até a Reforma, apenas o clero (padres, bispos, arcebispos, cardeais etc.) tinham acesso à Bíblia. Ela não estava disponível na língua do povo, mas somente em latim ou no original, e isso impedia que ela fosse lida e conhecida por pessoas que não faziam parte do corpo clerical. Todo o conhecimento popular era limitado ao que era pregado e nada podia ser questionado. Isso mudou com os reformadores.

Homens cheios do Espírito de Deus que entenderam que a mensagem do evangelho é para todos começaram o árduo trabalho de tradução das Escrituras para a língua de seus países. Isso aumentou o conhecimento do povo sobre Deus, o que os fez questionadores e muitas práticas errôneas foram desmascaradas. Não foi uma época fácil. Guerras e mortes assombraram a Europa por muito tempo, até que houvesse um novo período de concordância.

Apesar desse episódio com cenas tristes estarem presentes na história cristã, a Reforma abriu caminhos para o conhecimento de Deus a nível geral. Os estudos já aconteciam, é só olharmos os pais da Igreja como Agostinho, Ambrósio, Clemente, Irineu e muitos outros que, desde a morte dos apóstolos, já desempenhavam esse ofício de buscar conhecer a Deus através de Sua Palavra. Até hoje, seus trabalhos são excelentes fontes de conhecimento bíblico. Depois deles, muitos outros vieram, como Lutero, Tyndale, Armínio, Calvino, Zwinglio, Spurgeon, Edwards, Wesley, Whitefield, homens que tiveram seus nomes escritos na história da Igreja, por colaborarem de forma significativa nos meios cristãos. A possibilidade de ter artifícios próprios para o estudo cristão foi enormemente ampliada depois que esses materiais se tornaram disponíveis para qualquer um que tivesse interesse de buscá-los.

Pois bem, a Bíblia nos exorta, em Oseias, para que conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor (Os 6.3). E, no mesmo livro, ela nos mostra que o “povo foi destruído por falta de conhecimento” (Os 4.6 NVI). Outro ponto é que não podemos amar aquilo que não conhecemos. Então, busque conhecer o objeto da sua fé. Busque conhecer a Deus. Se tem uma coisa que Ele gosta é de se revelar e se tem um meio que Ele mais usa para isso esse meio é a sua Palavra. “Perca” tempo nela, conhecendo, observando os padrões.

Apesar de ser uma biblioteca com 66 livros, a Bíblia toda conta uma história só, de como o homem foi criado, pecou e foi resgatado pelo sacrifício de Cristo. Deus é o mesmo de Gênesis a Apocalipse, por mais que às vezes achemos que Ele muda no Novo Testamento. Use livros que vão te auxiliar a ler, pesquise sobre os pais da Igreja, sobre a própria história pós-bíblica até que o evangelho chegasse a você. Isso vai fazer com que você entenda a Deus de uma maneira mais completa, vai fazer com que a sua fé tenha mais sentido.

Não há nada mais impressionante do que a cada dia descobrir uma coisa nova sobre Deus, especialmente em sua Palavra, porque dá aquele estalo: “isso estava aqui o tempo todo. Como eu nunca notei?” e faz com que você veja Deus de uma forma diferente, a Igreja de uma forma diferente, seus irmãos de uma forma diferente e o mundo de uma forma diferente. Isso vai estreitar seus laços com o Criador e fortificar a sua fé.

Converse com seus amigos, questione. Mas não por querer polemizar, apenas no sentido de parar e analisar: “será que a Bíblia diz isso mesmo?”. Esse é um exercício excelente também para que estejamos atentos aos falsos mestres e profetas que surgem no meio da igreja (Mt. 7.15; 24.11; Mc 13.22, At. 20.30; 2 Pe 2.1; 1 Jo 4.1; Jd 1.4).

Você não precisa ser um doutor, universitário ou alguém com uma enorme capacidade intelectual para isso. Ore, peça discernimento e peça que Deus oriente suas leituras e estudos, para que você o conheça cada vez mais. João nos diz que “se pedirmos alguma coisa de acordo com a sua vontade, ele nos ouve” (1 Jo 5.14 NVI). Será que não podemos concluir que a vontade do Senhor é que O conheçamos?

Você não precisa odiar ou descartar a razão para ter fé. Até porque “Jesus morreu para tirar o nosso pecado, não o nosso cérebro”. Então, façamos bom proveito e que possamos glorificá-lo com tudo aquilo que temos à nossa disposição, inclusive nosso intelecto.

Foto: sem título, por Han Cheng Yeh


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Sobre o autor

Aline Ribeiro

Cristã, bióloga, professora, bibliófila, meio nerd, meio escritora, meio pianista e, como a foto sugere, meio besta.

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